"à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr atrás desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre.

Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer.
Porque a minha força é imortal."
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domingo, 23 de maio de 2010

O Amor virá! Sérvia e Bósnia...

Foi, sem dúvida, uma das viagens que mais me marcou, neste ano Erasmus. Pela guerra tão recente, pelas feridas que ainda não sararam, e que talvez fiquem abertas para sempre...
E por estarmos em plena Europa...

Uma noite em Belgrado, na Sérvia, que ainda não reconheceu a independência do Kosovo e que, por isso, ainda se encontra em conflito.
Confesso que os meus preconceitos se dissiparam um pouco,  o povo sérvio revelou-se aberto aos turistas ocidentais, simpático, prestável, com um olhar que me fez sentir compaixão.





Belgrado - Uma das maiores igrejas ortodoxas do mundo ( a maioria dos sérvios é cristão ortodoxo)

Belgrado - os edifícios cinzentos que nos fazem lembrar o antigamente...

Belgrado - alguns edifícios bem preservados na baixa da cidade


Duas noites em Sarajevo, Bósnia Herzegovina.
Pelo peso histórico da cidade, por me recordar de ver imagens da guerra da Bósnia na televisão, por todas as atrocidades que se cometeram, por termos enviado uma força Portuguesa de Paz para a região, por ainda termos cerca de 50 militares na região, senti uma forte carga emotiva, nesta cidade.
Sarajevo foi completamente destruída durante a guerra da Bósnia, edifícios como a Biblioteca Nacional, o Hospital, várias mesquitas da cidade ficaram reduzidos a pó.
Impressionante foi constatar a rapidez com que a cidade foi reconstruída, tendo mais edifícios modernos do que Belgrado. Contudo, permanecem alguns prédios com marcas de balas, onde actualmente vivem pessoas, e outros "prédios fantasma" que ainda não foram deitados abaixo para serem reconstruídos...isso é deveras arrepiante...

A guerra da Bósnia veio mostrar, uma vez mais, a intolerância que os seres humanos têm com a diferença.
Se quiserem ler mais sobre a guerra da Bósnia:http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_da_B%C3%B3snia

Envolveu os três grupos étnicos e religiosos da região: os sérvios cristãos ortodoxos, os croatas católicos romanos e os bósnios muçulmanos. É o conflito mais prolongado e violento da Europa desde o fim da II Guerra Mundial, com duração de 1.606 dias. A guerra durou pouco mais de três anos e causou cerca de 200.000 vítimas entre civis e militares e 1,8 milhões de deslocados, de acordo com relatórios recentes. Do total de 97.207 vítimas documentadas, 65% eram muçulmanos bósnios, 25% sérvios e 8% croatas. Entre as vítimas civis, 83% eram bosníacos, 10% sérvios e mais de 5% eram croatas, seguido por um pequeno número de outros, como os albaneses ou povo Romani. 
Pelo menos 30% das vítimas civis bósnias eram mulheres e crianças.

Actualmente, o governo Bósnio é uma república presencialista com um representante bósnio muçulmano, um croata e um sérvio.
Sarajevo reaprendeu a viver na diferença, e é , curiosamente, isso que torna a cidade, do meu ponto de vista, tão especial. Olhamos e vemos mesquitas com os seus minaretes, igrejas católicas e ortodoxas. Há cemitérios para as 3 confissões religiosas separadamente e até para os comunistas (isto foi dito por um bósnio e eu achei piada).
Também me foi dito em Sarajevo: "Só há dois tipos de Homens: os bons ou os maus, o resto pouco interessa". 
Ficam as imagens de Sarajevo, com uma surpresa tão especial...

Um dos maiores hotéis de Sarajevo, foi completamente destruído durante a guerra.

 Uma das muitas mesquitas da cidade

Um dos mais recentes centros comerciais da cidade

Contraste: Prédios modernos, com prédio em ruínas do tempo da guerra

Jogo de xadrez em plena rua (faz lembrar o jogo da  malha nas nossas aldeias, não faz?;))

 Baixa de Sarajevo: cheia de esplanadas e de cafés muito acolhedores, mesmo em dia de chuva

Mais baixa, lá ao fundo, bem pequeno, mais um minarete

Universidade

Vestígios de guerra ainda não apagados

Vista de Sarajevo, entre as montanhas

Marcas de tiros em prédios de habitação...

Local histórico: o acontecimento que deu início à 1ª Guerra Mundial

A surpresa final...

E o fabuloso concerto... O profissionalismo... Os bósnios a aplaudirem de pé... E o Orgulho!...


Por fim, fica uma música dos U2 com o Pavarotti. O vídeo está em Português do Brasil, mas explica o propósito da música. As imagens são chocantes para pessoas mais sensíveis.





Um beijinho doce.
Sejam Felizes!

domingo, 25 de abril de 2010

25 Liberdades


Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero.
Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.

Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo qualquer.

Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
"quando for grande
não vou combater".

Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.

Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás. 


Ermelinda Duarte






Nasci em 1984, 10 anos passados da revolução de Abril...
E, apesar das mágoas e do sofrimento que este período deixou em alguns Portugueses, apesar do tempo em que vivemos não ser o ideal a nível social e económico, apesar de haver muitas imperfeições neste país que é Portugal... Valeu a Pena!

Sinto-me Orgulhosa deste povo que decidiu ser livre, que conseguiu um país melhor para as gerações que se seguiram, um país onde se pode dizer o que se pensa, onde as mulheres podem votar, onde a mulher conquistou aos poucos o seu papel socialonde as pessoas podem optar a nível profissional, a nível pessoal, a nível sexual... Um país onde não há separação de sexos nas escolas, onde as mulheres têm direito ao ensino superior, onde os namorados podem ter manifestações de afecto em público (e que manifestações, por vezes! ;)), um país que ficou mais alegre e mais tolerante...

É certo que existem muitas imperfeições, muitos preconceitos ainda, muitas coisas de que não nos orgulhamos neste país, que é meu, que é nosso, que é de todos...

Mas fico triste, tremendamente triste...quando oiço pessoas tão jovens a defender que "no tempo de Salazar é que era"! 
Somos livres, somos livres, não voltaremos atrás. Muito mal andamos nós, gerações pós 25 de Abril, se não percebermos o nosso dever (e não só os direitos!!). O nosso dever de não deixarmos a história voltar atrás, o dever de levar para as futuras gerações ensinamentos de Abril, a história do nosso povo, das nossas conquistas, da nossa liberdade que tanto custou a alcançar!!!
Este país de hoje, com todos os seus defeitos, é um país que vive em Democracia, é um país onde respiramos liberdade, transpiramos liberdade, rimos liberdade, bebemos liberdade, choramos liberdade (apesar de alguns assuntos menos esclarecidos)... E cabe-nos a nós, não só criticar, mas sermos activos na conquista diária, e reconquista diária destes direitos, destes ideais... 
Sermos activos na conquista de um país menos corrupto e mais justo (para mim são os dois grandes problemas nacionais)... Sermos activos na educação das novas gerações, dando o exemplo. Sermos activos na luta contra a desigualdade, a injustiça, a xenofobia, o racismo, a pobreza.
É claro que pode ser uma grande Utopia, mas vale a pena tentar...
E se todos tentarmos teremos melhores seres humanos e, certamente, um Portugal mais Feliz.

Ah, e já agora, para aqueles jovens que expressam a sua opinião contra o 25 de Abril, nunca é tarde para lembrar que só lhes é permitido dizerem essas parvoíces porque já nasceram em Liberdade...
Informem-se, vão votar (e não fiquem sentados à espera que os outros decidam por vós) e façam qualquer coisinha para mudar o país para melhor.)

E para todas as amigas e amigos que passam por este espaço, um beijinho com muito carinho e...
Sejam Felizes, quaisquer que sejam as escolhas pessoais.
Estamos cá todos para sermos Felizes e para sermos diferentes, em Liberdade.



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

23 de Outubro - Feriado Nacional Húngaro

Olá a todos!

No dia 23 de Outubro foi feriado nacional aqui na Hungria... Não poderia deixar passar data tão importante para os húngaros neste blog...

Este feriado relembra 2 acontecimentos marcantes na Hungria (pensei logo que se fosse em Portugal teríamos 2 feriados, mas pronto):

1- Insurreição Húngara de 1956

2- Proclamação da constituição democrática húngara em 1989

Mas era sobre a insurreição húngara que vos queria falar porque continua a suscitar muitas recordações tristes e muitas mágoas neste povo...

Então contextualizando historicamente a Hungria...


 Guerra, Regência e Holocausto 

Tratado de Trianón 
Em 1920, após a derrota na I Grande Guerra Mundial, a Hungria, através da assinatura do Tratado de Trianón, perde dois terços do seu território.

O Tratado de Trianón foi assinado em 4 de junho de 1920, no Palácio Petit Trianon, em Versalhes, França. Destinava-se a regular a situação do novo estado húngaro que substituiu o Reino da Hungria, parte do antigo Império Austro-Húngaro, após a Primeira Guerra Mundial.
As partes do tratado eram as potências vitoriosas, os seus aliados e o lado perdedor. As potências vitoriosas incluiam os Estados Unidos, o Reino Unido, a França e a Itália; os seus aliados eram a Romênia, a Jugoslávia e a Checoslováquia. O lado perdedor estava representado pela Hungria.

No campo dos derrotados, a Hungria perdeu dois terços de seu território, que passou de 325.000 km² a apenas 93 000 km² após a assinatura do tratado, e quase dois terços da sua população, de 19 milhões para 7 milhões de habitantes.

O território perdido foi distribuído da seguinte maneira:
  • a Romênia recebeu a Transilvânia (102.000 km²);
  • a Croácia, a Eslavônia e a Voivodina uniram-se à Sérvia (63.000 km²);
  • a Checoslováquia recebeu a Rutênia e a Eslováquia (63 000 km²) ;
  • a Áustria recebeu a Burgenland (4.000 km²); Sopron voltou à Hungria após o referendo de 1921.
A Hungria perdeu o acesso ao mar que possuía através da Croácia.
O tratado criou expressivas minorias húngaras na Roménia, na Jugoslávia e na Checoslováquia.




  
Todo o território branco fora da linha vermelha que delimita a Hungria actual, foi o território que a Hungria perdeu....

Holocausto
Na II Guerra Mundial, em troca do apoio da Alemanha de Hitler na recuperação dos territórios perdidos no tratado de Trianón, a Hungria aliou-se aos Nazis.
Em 1941, Horthy (regente da monarquia húngara desde 1920) enviou tropas para a invasão da Jugoslávia e, mais tarde, da União Soviética.
Nos finais de 1944, Horthy torna-se um empecilho e é preso pelas SS.
Os Cruzes-Flechadas, pró-hitlerianos, passam a dirigir o país.

 565 000 húngaros foram mortos até Agosto de 1944, um terço de todos quanto morreram em Auschwitz durante o conflito.

Sovietização

Depois do governo interino ter organizado as eleições livres de 1945, ganhas pelo partido dos pequenos proprietários, com 57% dos votos, é proclamada a República.
Contudo, nas eleições de 1947, a coligação de esquerda, entretanto formada pelos Comunistas, Sociais-Democratas e outras forças políticas, chegou aos 60% dos votos, e, nas eleições de 1949, essa mesma coligação, agora a concorrer em lista única, arrecadou cerca de 95% dos votos.
Consequentemente, a 20 de Agosto de 1949, foi proclamada a República Popular da Hungria, cujo poder passou a ser representado pelo Politburo do Partido Comunista.
Entre 1948 e 1953, aquele que foi o primeiro secretário geral do partido, Mátyás Rákosi, irá pôr em marcha uma planificada e inflexível política estalinista.
A colectivização agrária foi alvo de forte contestação por parte de muitos camponeses, pelo que alguns acabaram nas prisões ou executados.
A Hungria passou então a ser mais um estado-satélite da União Soviética.

Revolução
A morte de Estaline em 1953 fez cair Rákosi, que é substituído por Imre Nagy (encetou uma política reformista nos 2 anos de permanência no poder).
Mas a linha dura não apreciou as suas reformas e substitui-o, em Abril de 1955, por Ernó Geró.

(A Revolução Húngara de 1956 foi um levantamento popular espontâneo contra o governo estalinista na Hungria e contra a política imposta pela União Soviética, iniciado em 23 de Outubro de 1956 com uma grande manifestação estudantil que marchou pelo centro da capital Budapeste. No dia 4 de Novembro de 1956, o Exército Vermelho invade a cidade e a resistência organizada chega ao fim, seis dias depois.)

O levantamento húngaro começou em 23 de Outubro de 1956, com uma manifestação pacífica de estudantes em Budapeste. Exigiam o fim da ocupação soviética e a implantação do "socialismo verdadeiro". Quando os estudantes tentaram resgatar alguns colegas que haviam sido presos pela polícia política, esta abriu fogo contra a multidão.
No dia seguinte, oficiais e soldados juntaram-se aos estudantes nas ruas da capital. A estátua de Estaline foi derrubada por manifestantes que entoavam, "russos, voltem para casa", "abaixo Gerő" e "viva Nagy".

No dia 25 de Outubro, tanques soviéticos dispararam contra manifestantes na Praça do ParlamentoMais de 100 pessoas foram mortas! Chocado com tais acontecimentos, o comité central do partido forçou a renúncia de Gerő e substituiu-o por Imre Nagy.


 25 de Outubro de 2009 -  Praça do Parlamento, Budapeste


 


 


Nagy foi à Rádio Kossuth e anunciou a futura instalação das liberdades, como seja o multipartidarismo, a extinção da polícia política, a melhoria radical das condições de vida do trabalhador e a busca do socialismo condizente com as características nacionais da Hungria.
Em 28 de Outubro, o primeiro-ministro Nagy vê as suas opções serem aceites por todos os órgãos do Partido Comunista. Os populares desarmam a polícia política.

Em 30 de outubro, Nagy comunicou a libertação do cardeal Mindszenty e de outros prisioneiros políticos. Reconstituíram-se os Partidos dos Pequenos Proprietários, Social-Democrata e Camponês Petőfi.
O Politburo Soviético decide, numa primeira fase (30 de Outubro) mandar as tropas sair de Budapeste, e mesmo da Hungria se viesse essa a ser a vontade do novo governo.

Mas no dia seguinte, volta atrás e decide-se pela intervenção militar e instauração de um novo governo. A 1 de Novembro, o governo húngaro, ao tomar conhecimento das movimentações militares em direcção a Budapeste, comunica a intenção húngara de se retirar do Pacto de Varsóvia e pede a protecção das Nações Unidas.

A 3 de Novembro, Budapeste está cercada por mais de mil tanques. A 4 de Novembro, o Exército Vermelho invade Budapeste, com o apoio de ataques aéreos e bombardeamentos de artilharia, derrotando rapidamente as forças húngaras.  

Calcula-se que 20 000 pessoas foram mortas durante a intervenção soviética.  
Nagy foi preso (e posteriormente executado) e substituído no poder pelo simpatizante soviético János Kádár.  
Mais de 2 mil processos políticos foram abertos, resultando em 350 enforcamentos. Dezenas de milhares de húngaros fugiram do país e cerca de 13 mil foram presos. As tropas soviéticas apenas saíram da Hungria em 1991.

Democracia

Em Junho de 1989,  a nação deu nova e solene sepultura a Imre Nagy e, simbolicamente, a todas as vítimas da Revolução de 1956. Uma mesa redonda nacional reuniu os novos partidos e alguns antigos, recriados (como os Pequenos Proprietários e os Sociais-Democratas), bem como os comunistas, para discutir a reforma da Constituição e os preparativos para as eleições livres.

Em Outubro, o Partido Comunista reuniu o seu último congresso e transformou-se no Partido Socialista Húngaro (MSzP). Numa sessão histórica também em Outubro, o Parlamento determinou a convocação de eleições parlamentares pluripartidárias e de uma eleição presidencial directa. A nova legislação converteu a República Popular da Hungria na República da Hungria, garantiu os direitos humanos e civis e criou uma estrutura institucional que assegurava a separação dos poderes.

A nova República foi oficialmente declarada em 23 de Outubro de 1989, aniversário da Revolução de 1956. (e por isso recordam 2 datas importantes no mesmo dia)






Praça do Parlamento, Budapeste - Hungria, 20 Anos de Democracia




Beijinhos......